8.4.20

In vino veritas

https://drive.google.com/uc?export=view&id=1ESt8n2_1lU87Lh8mWepepOA7XdHl39ec

- Gilly, como eh que voce compra um vinho com esse nome?

- Ele nao eh bom?

- Eh, mas o nome… jamais compraria um vinho com esse nome.

- Foi minha mae que me indicou, no rotulo da para ler historias dos imigrantes prisioneiros que chegaram aqui ha 200 anos atras.

- Entao esta explicado...

***

Quando os pais de Gilly se separaram, Lorraine mudou para outra cidade apenas com a filha mais nova, os dois filhos mais velhos moravam em colegio interno e Gilly que tinha 11 anos, ficou morando em Moranbah com o pai.

Na nova cidade Lorraine trabalhou em diferentes lugares ate um dia ver um anuncio de emprego para trabalhar em prisoes. Ela disse que nem pensou no trabalho em si e sim nos beneficios, o equivalente a passar em um concurso publico no Brasil. Conseguiu fazer o curso de 3 semanas em Brisbane e teve como unica condicao trabalhar em cadeias masculinas. Me falou que nao teria condicoes de se ver rodeada de mulheres presas. O inicio nao foi facil, depois de um tempo descobriu que os colegas de trabalho, homens, fizeram uma aposta de que ela nao duraria um ano no emprego, perderam a aposta.

Confesso que no comeco eu achava a profissao estranha, mas adorava ouvir as historias que ela contava. Os meninos tambem gostam de ouvir as historias sobre os 'bad guys', principalmente antes de irem dormir (!).

Depois de quebrar a bacia uns anos atras ela teve que ser transferida, afinal nao conseguiria mais andar tanto fazendo rondas, diurnas e noturnas. Ela passou a trabalhar em um alojamento para homens recem saidos da prisao e moradores de rua. Eles tem direito a ficar nesse alojamento gratuitamente por 3 meses ate conseguir dar um rumo na vida, ou nao. Ela trabalhava alguns dias ajudando essas pessoas a regularizar os documentos, se inscrever em algum curso tecnico e encaminha-los para agencias de empregos. Aos domingos ela cozinhava café da manha, almoco e jantar e tambem fazia as compras da semana. Uma vez a ajudei a fazer as compras, o carrinho super pesado, nao sei como conseguia fazer isso sozinha.

Desde o ano passado ela esta aposentada. Mas quando vamos aos parques levar os cachorros e os meninos para brincar, ela sempre reencontra algum sem teto ou outro para colocar a conversa em dia.

Acho que vem dai a sua capacidade de ser tao aberta a todos os tipos de pessoas, independente do lugar de onde vieram. Sempre me senti bem vinda e a vontade desde a primeira vez que nos conhecemos e os meninos adoram a avo e suas excentricidades. 

As vezes fico me perguntado se essa nao foi uma maneira que ela encontrou de se reconectar com algum antepassado que chegou por essas bandas de navio ha muitos anos atras para povoar esse pais.

Eu acredito que nos, seres humanos, somos como um bom vinho, ficamos melhores com o passar do tempo, de geracao em geracao. So precisamos ter o cuidado de nao nos deixar azedar...


https://drive.google.com/uc?export=view&id=1jPO_bQdrwVpCm-tbaeN7LWyoZsQCY8ks

Benny, Luca, Xavier, Lorraine e Gilly
Rio de Janeiro, Abril de 2019

1 comment:

Tia Vi said...

Não lembrava deste trabalho de Lorraine. Danada ela !!!